quarta-feira, 2 de setembro de 2015
Todos vamos envelhecer… Querendo ou não, iremos todos envelhecer. As pernas irão pesar, a coluna doer, o colesterol aumentar. A imagem no espelho irá se alterar gradativamente e perderemos estatura, lábios e cabelos. A boa notícia é que a alma pode permanecer com o humor dos dez, o viço dos vinte e o erotismo dos trinta anos. O segredo não é reformar por fora. É, acima de tudo, renovar a mobília interior: tirar o pó, dar brilho, trocar o estofado, abrir as janelas, arejar o ambiente. Porque o tempo, invariavelmente, irá corroer o exterior. E, quando ocorrer, o alicerce precisa estar forte para suportar. Erótica é a alma que se diverte, que se perdoa, que ri de si mesma e faz as pazes com sua história. Que usa a espontaneidade pra ser sensual, que se despe de preconceitos, intolerâncias, desafetos. Erótica é a alma que aceita a passagem do tempo com leveza e conserva o bom humor apesar dos vincos em torno dos olhos e o código de barras acima dos lábios. Erótica é a alma que não esconde seus defeitos, que não se culpa pela passagem do tempo. Erótica é a alma que aceita suas dores, atravessa seu deserto e ama sem pudores. Aprenda: bisturi algum vai dar conta do buraco de uma alma negligenciada anos a fio.
In "Erótica é a alma" Adélia Prado
In "Erótica é a alma" Adélia Prado
terça-feira, 1 de setembro de 2015
A cor da Luz
Uma manhã de Julho no Algarve: foi aqui que Deus testou a cor de luz.
Sempre o eco do título de António Ramos Rosa, algarvio de Faro: "estou vivo e escrevo sol". A luz do Algarve, quando nasce, ensina a respirar, a atravessar as coisas como se fossem antigas de agora.
Falo da luz sob uma figueira velha no Algoz; da pedra vermelha de Silves contra os olhos, a refundar o sangue; da escadaria de Vilalara onde Natércia Freire ouviu escreveu de memória "Presença de Ulisses", dos azuis dos Salgados na raiz das rochas, onde eu quase morri.
Não entendo por isso como pode alguém satisfazer-se com a brevidade do que nos querem vender como sendo hoje o Algarve: mais uma colecção de praias fatiadas por mais repetições de resorts, agrafadas a campos de gole ou centros comerciais. O Algarve antigo e eterno, assassinado todos os dias, ainda existe e se esconde, secreto, no interior, no desértico, no quase imaterial do seu cheiro: essa milenar mistura de luz, alfarrobas, figos secos e laranjeiras, onde parece que Deus testou a ideia da cor.
Sempre o eco do título de António Ramos Rosa, algarvio de Faro: "estou vivo e escrevo sol". A luz do Algarve, quando nasce, ensina a respirar, a atravessar as coisas como se fossem antigas de agora.
Falo da luz sob uma figueira velha no Algoz; da pedra vermelha de Silves contra os olhos, a refundar o sangue; da escadaria de Vilalara onde Natércia Freire ouviu escreveu de memória "Presença de Ulisses", dos azuis dos Salgados na raiz das rochas, onde eu quase morri.
Não entendo por isso como pode alguém satisfazer-se com a brevidade do que nos querem vender como sendo hoje o Algarve: mais uma colecção de praias fatiadas por mais repetições de resorts, agrafadas a campos de gole ou centros comerciais. O Algarve antigo e eterno, assassinado todos os dias, ainda existe e se esconde, secreto, no interior, no desértico, no quase imaterial do seu cheiro: essa milenar mistura de luz, alfarrobas, figos secos e laranjeiras, onde parece que Deus testou a ideia da cor.

segunda-feira, 31 de agosto de 2015
quinta-feira, 6 de agosto de 2015
quarta-feira, 5 de agosto de 2015
terça-feira, 4 de agosto de 2015
segunda-feira, 3 de agosto de 2015
O Regresso
voltei à casa da minha infância
e contudo é-me estranho o seu espaço.
As minhas mãos tocaram nas árvores
como quem acarinha alguém que dorme
e repeti velhos caminhos
como se recuperasse um verso esquecido
e vi na tarde cada vez mais límpida
a frágil lua nova
abandonada ao amparo sombrio
da palmeira e das suas altas folhas,
como o pássaro ao ninho.
Que multidão de céus
abarcará o pátio entre os seus muros,
que poentes heroicos
militarão no abismo da rua
e quantas quebradiças luas novas
infundirão ternura a este jardim
antes que a casa volte a conhecer-me
e seja outra vez um hábito!
Poema retirado de Fervor de Buenos Aires (1923)
Jorge Luis Borges
domingo, 2 de agosto de 2015
sábado, 1 de agosto de 2015
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