Nas alturas mais complicadas da minha vida escrevo os melhores capítulos.

Não há passos perdidos.


quarta-feira, 26 de maio de 2021

terça-feira, 25 de maio de 2021

quinta-feira, 13 de maio de 2021

Beirut - The Rip Tide (Official Video)

...y la gente que ocupaba ese lugar

 "Cuando uno extraña un lugar, lo que realmente extraña es la época que corresponde a ese lugar; no se extrañan los sitios, sino los tiempos".

Marcel Proust

quarta-feira, 12 de maio de 2021


Estive numa livraria a participar na apresentação de um livro do poeta romeno, e meu amigo há mais de trinta anos, Dinu Flamand. O livro é muito bom, está muito bem traduzido e no entanto, de uma língua para outra, o que inevitavelmente se perde! Recordo-me de ler poesia portuguesa em francês, o Só de António Nobre, e de sentir
– É isto mas não é isto
porque faltava qualquer coisa, difícil de explicar o quê, que lhe diminuía irremediavelmente a força e o encanto, como quando, ao vermos o retrato de uma pessoa que conhecemos ou olhamos para ela num espelho, ainda que a mover-se e a falar, é ela e não é ela e não sei quê de essencial inevitavelmente se perde. Daí que qualquer tradução de uma obra seja impossível, qualquer retrato imperfeito. Somos nós e não somos nós, é simplesmente uma aproximação de nós e nem um génio como Velázquez, nos retratos que fez, consegue dar-nos a pessoa que, se colocada à nossa frente, tem uma riqueza muito maior. Ele pintou por exemplo, o admirável quadro que representa o Papa Inocêncio XII, o Papa comentou
– Demasiado verdadeiro
e esta frase é bastante mais profunda do que parece. Talvez que demasiada verdade seja insuportável, talvez as máscaras que, mesmo sem querer, usamos sempre, sejam mais importantes que o resto. Ainda que os traços do Papa sejam perfeitamente fiéis não o são realmente. Há outra pessoa para além daquela pessoa, há outra pessoa naquela pessoa
(é tão difícil explicar isto, não existem palavras que traduzam o que sinto)
e isso nem Velázquez o pode dar, porque somos e não somos o que os outros vêem, somos e não somos o que de nós julgamos ser. Ninguém é o que é, e recordo-me o que Nerval escreveu nas costas de uma fotografia sua: Je suis l’autre, sou o outro, frase que, ao lê-la pela primeira vez, achei estranha e agora considero perfeitamente justa. Um poema, por exemplo, é mais do que um poema, uma mulher ou um homem é mais do que uma mulher ou um homem. Falta sempre algo vital que é inapreensível e esse inapreensível, e só esse inapreensível, é verdadeiro. E isto para as fotografias, para os livros, para que seja o que for da nossa vida. Ninguém é o que parece. Ou antes: ninguém é o que é, todos somos não apenas diferentes mas mais do que somos, ou outra coisa além do que somos e daí não podermos conhecer-nos. A verdadeira essência é irreproduzível, como Saint-Exupéry disse invisível para os olhos e, acrescento eu, para os sentidos. A vida, ao fim e ao cabo, não passa de um jogo de espelhos e de máscaras. Não alcançamos o fundo, ficamos pela nata das coisas talvez porque aquilo a que chamamos realidade seja por natureza fugidia e fluida. Hipócrates, o grande homem da Medicina, conseguiu exprimir mais ou menos tudo isto quando escreveu que “a arte é longa, a vida breve, a experiência enganadora, o juízo difícil e a oportunidade fugidia”, uma frase que não cessa de atormentar-me e perseguir-me. E isto é válido para o acto médico consoante é válido para qualquer pessoa, qualquer situação, qualquer livro. Por exemplo um livro lido segunda vez é outro. Por exemplo ao conhecermos melhor alguém o alguém vai mudando, até fisicamente, dentro de nós. Cortázar: tudo é excepcional, e o excepcional escapa-nos. Daí a vida, todas as vidas, serem um jogo de espelhos, eternamente mutável, que jamais conseguimos fixar. É espantoso isto: faço um livro. E, feito o livro, ele continua, mesmo já impresso, a mudar. E é ele que muda ou somos nós que mudamos em relação a ele? O meu pai morreu há anos e no entanto continua a alterar-se dentro de mim. Tudo continua a mudar permanentemente dentro de nós e, pergunto eu, é tudo que muda ou somos nós que mudamos, ou são o tudo e nós a mudarem? A consequência, como se afirma, é a realidade não existir e acabarmos por voltar, inevitavelmente, a pergunta de Pôncio Pilatos:
– O que é a verdade?
que me surge como a questão essencial que permanece sem resposta, que permanecerá para sempre sem resposta. Ou então pode pôr-se a hipótese de, por exemplo
– Quantas verdades existem?
e talvez existam inúmeras verdades a cada momento da nossa vida e caminhemos na tal floresta de enganos de que D. Francisco Manuel de Melo, no século XVIII, falava. Tudo isto, e tanto mais que não cabe num textinho destes, a propósito de um livro de poemas. O escritor francês Gautier tinha toda a razão: levaram-no a ver as Meninas de Velázquez, uma das maiores criações do Homem, e ele, ao cabo de um longo silêncio, perguntou
– Mas onde é que está o quadro?
e esta pergunta vale por tudo o que neste papel disse.

ANTÓNIO LOBO ANTUNES
INTRODUÇÃO A TODOS NÓS

sábado, 8 de maio de 2021

sexta-feira, 7 de maio de 2021

O Passeio de Lisboa

Subo a Rua do Carmo, oiço Fado e o burburinho da rua…
este é o passeio dos tristes e dos alegres!
No Chiado, Lisboa desabrochou e viveu os seus melhores anos de tertúlias e agitação, na década de 90 foi renovado por Siza Vieira, reinventou-se e está vivo, mas permanece a atmosfera de Sec. XIX.
Hoje já não há castanhas, vieram morangos, e a vendedora apregoa : - Frescos e Bons!!
Olho a montra da Luvaria Ulisses que desde 1925 expõe luvas perfeitas para qualquer mão, num espaço demasiado pequeno.
Espreito a feira dos alfarrabistas, as lojas de montras chiques, e menos chiques, vejo os artistas de rua num rodopio, o café-concerto,…
Entro na Vida Portuguesa, como quem entra na memória de qualquer português, e eu menina.
Almoço ao lado, no menos nacional café da zona, que por ser estrangeiro não tem receio de se mostrar, e deixa entrar toda a luz de Lisboa, pelas rasgadas janelas.
Converso com a D. Clementina que veio de Barcelos atrás do seu homem e ficou de vez, agora gasta as horas a ver quem passa e mete conversa com todos a contar as suas desgraças.
prossigo o passeio…
Entre as travessas revejo Pessoa, respiro Teatros, escuto Óperas, ao longe o rio e cada esquina cheira a Saudade.
Aqui, onde o elegante, o moderno e o antigo se encontram e se misturam.
Vou à Merendinha, do Sr. Artur Costa, que queixoso do negócio vende a 0.90€ a melhor limonada de Lisboa, desde 1936 na Rua Nova do Almada numa tasca bem velhinha.
Volto a subir para me sentar nas escadinhas da Igreja, alunos desenham eu observo quem passa.
As esplanadas estão cheias, com as meninas da moda, turistas e a vaga de homens demasiado perfeitos.
Soam acordes de guitarra, misturados com cânticos árabes de um pedinte marroquino.
Por cima de nós andorinhas voam de telhado em telhado, em baixo outro corrupio de pessoas a entrar e a sair de cabeleireiros, livrarias, cafés ou ateliers.
Chega mais um artista de rua, tem o cabelo grande e branco, na cabeça uma máscara de pássaro, toca vários instrumentos artesanais que emitem os sons da natureza, o ritmo é contagiante, é o Claudio Montuori, italiano e sem idade, vale todas as moedas que recebe, embora ele as peça para os pássaros.
Encontro um amigo que não via faz tempo, subimos ao Largo do Carmo para beber chá, nesse antigo palco de revoluções, continua um largo animado.
Volto a descer a colina, comprar café de saco na Casa Pereira, que cheira a café recém moído.
Tento a sorte, na casa da esquina em frente, e apanho mas é o 28.
O Chiado é esta Lisboa que vivemos, só precisamos de alma grande e bons sapatos!
RG 2011
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domingo, 2 de maio de 2021

 


 No sorriso louco das mães batem as leves

gotas de chuva. Nas amadas
caras loucas batem e batem
os dedos amarelos das candeias.
Que balouçam. Que são puras.
Gotas e candeias puras. E as mães
aproximam-se soprando os dedos frios.
Seu corpo move-se
pelo meio dos ossos filiais, pelos tendões
e órgãos mergulhados,
e as calmas mães intrínsecas sentam-se
nas cabeças filiais.
Sentam-se, e estão ali num silêncio demorado e apressado
vendo tudo,
e queimando as imagens, alimentando as imagens
enquanto o amor é cada vez mais forte.
E bate-lhes nas caras, o amor leve.
O amor feroz.
E as mães são cada vez mais belas.
Pensam os filhos que elas levitam.
Flores violentas batem nas suas pálpebras.
Elas respiram ao alto e em baixo. São
silenciosas.
E a sua cara está no meio das gotas particulares
da chuva,
em volta das candeias. No contínuo
escorrer dos filhos.
As mães são as mais altas coisas
que os filhos criam, porque se colocam
na combustão dos filhos, porque
os filhos estão como invasores dentes-de-leão
no terreno das mães.
E as mães são poços de petróleo nas palavras dos filhos,
e atiram-se, através deles, como jactos
para fora da terra.
E os filhos mergulham em escafandros no interior
de muitas águas,
e trazem as mães como polvos embrulhados nas mãos
e na agudeza de toda a sua vida.
E o filho senta-se com a sua mãe à cabeceira da mesa,
e através dele a mãe mexe aqui e ali,
nas chávenas e nos garfos.
E através da mãe o filho pensa
que nenhuma morte é possível e as águas
estão ligadas entre si
por meio da mão dele que toca a cara louca
da mãe que toca a mão pressentida do filho.
E por dentro do amor, até somente ser possível
amar tudo,
e ser possível tudo ser reencontrado por dentro do amor.

Herberto Helder 



sábado, 1 de maio de 2021

Céu azul com poucas abertas, Maio a abrir,

numa Lisboa onde por vezes oiço ao longe o relógio da torre das cegonhas.

Fui ao mercadinho dos verdes, olhei os cabazes cheios de toda a variedade do Reino Fungi, 

recordei o tempo das tachadas de cogumelos selvagens que eu devorava quando ainda haviam poucos carros,

do arroz com tubras da avó Alice, 

era sempre Primavera, 

escapava do recreio da escola, para os braços enormes do meu avô Luís, que fazia chover guloseimas nos bolsos,

dias em que a claridade da cal das paredes encadeava, o azul era limpo,

e o Sol não tinha vergonha.

No bater do bico das cegonhas parava à escuta, 

mas nem os joelhos esfolados me faziam pousar.

Ainda tenra percebi que a condução de um veículo e o saber cozinhar são a garantia do sorriso em crescente numa criança-mulher.

Arrival | On The Nature of Daylight