Nas alturas mais complicadas da minha vida escrevo os melhores capítulos.

Não há passos perdidos.


sábado, 23 de junho de 2018

Peter Sandberg - Dismantle (Live)

HERBERTO HELDER, in “Os Passos em Volta”

O QUARTO (Excerto)

“ […] O barulho do mar e do vento.
A montanha, a ideia da montanha impraticável.

E depois a terra arenosa por ali fora. E a solidão.
E sentir sobretudo que já não pode haver medo.
Fecho as portas da casa, a porta de saída e as portas dos quartos entre si.
E fico no quarto sem soalho e deito-me no chão.

Ouço o mar e o vento à frente e atrás da montanha solitária e poderosa.

Depois encosto a cara à terra profundíssima
para escutar o seu húmido sussurro
atravessando-a toda e passando por mim.

E então poderei morrer.”

quarta-feira, 20 de junho de 2018

domingo, 10 de junho de 2018

The older you get the stronger the wind gets - and it's always in your face.


sábado, 9 de junho de 2018

foi a teu lado que me deitei pela
primeira vez num prado, lembras-te?
foi a teu lado que olhei por várias
vezes o céu enorme e estrelado e me
senti acompanhado.
foi a teu lado que chorei e ri, e quando
me perdi me mandaste tomar um duche
de água fria (por causa da Natureza...)
foi a teu lado que parti vidros e
gritei e depois adormeci sem saber como, encantado.
foi a teu lado, ao teu lado, em teu lado
que cresci e aprendi também a ser assim,
- pirilampo -
aquele que pelo escuro se vai iluminando.
 p.p.



quinta-feira, 7 de junho de 2018

domingo, 3 de junho de 2018

A noite passada - Sérgio Godinho

Foto de Patricia Abella Martin.
“And I, infinitesima­l being,
drunk with the great starry
void,
likeness, image of
mystery,
I felt myself a pure part
of the abyss,
I wheeled with the stars,
my heart broke loose on the wind.”
― Pablo Neruda, 100 Love Sonnets

sábado, 2 de junho de 2018

quarta-feira, 30 de maio de 2018

terça-feira, 22 de maio de 2018

Pomar

Hoje morreu o Júlio,

fico a pensar que na verdade nunca se morre sendo artista,

mas morreram as tardes em Tavira na casa das artes
alucinadas entre esperas de iluminados.

Será que o branco quente daqueles dias
te trazem memórias de mim?
Ver a imagem de origem

quarta-feira, 25 de abril de 2018

Ouvi a tuas palavras,
alinhadas como pássaros num fio eléctrico,
não cantavam como pássaros, assobiavam como balas.
Ouviste o meu coração partir-se?
Partiu-se como se parte qualquer objecto doméstico e quotidiano,
no lava-loiça uma chávena, um copo, um prato.
É difícil sair inteiro de uma história de amor.
É difícil encontrar um serviço de chá em uso,
uma chávena, um açucareiro, um bule, sem uma asa partida.
©rsm

sábado, 14 de abril de 2018

Foto de José Silva.
Joan Margarit,
«Misteriosamente Feliz»

sexta-feira, 30 de março de 2018

Grygory Sokolov - Live Recital(Bach/Beethoven/Schubert)

Os trompetistas não voam
Escolheu um vestido que não usava há muito tempo,
demasiadas flores, demasiados botões,
botões pequeninos de madrepérola,
demorou a enfiar os botões dentro das casas,
quase o mesmo tempo que demora a sair de casa,
mora num quinto andar sem elevador,
sentada ao espelho no toucador,
mas antes pôs um disco a tocar no gira-discos,
demorou a acertar com agulha
demorou até o Chet Baker começar a cantar
you make me smile with my heart
your looks are laughable
unphotographable,
um rapaz do seu tempo, da sua criação,
são do mesmo mês e do mesmo ano
Dezembro de 1929, morreu tão novo,
caiu da janela de um quarto de hotel em Amesterdão,
os trompetistas não voam,
ainda hoje não se sabe se acidente,
pensava, enquanto o ouvia cantar,
but don't change a hair for me
not if you care for me
enquanto de nariz enfiado no espelho,
cataratas, miopia, pintava os lábios,
primeiro rosa, depois vermelho,
porque o rosa, mesmo com óculos, invisível aos seus olhos,
depois nos olhos passou um lápis-lazúli,
nas maçãs dos rosto um tom de avelã,
deu uma segunda demão nas cores,
do guarda-jóias um o colar de pérolas e os brincos em par,
comoveu-se com a sua vaidade,
estava feliz como há muito tempo não estava,
estava feliz sem saber porquê,
depois escolheu os sapatos,
tem dois pares de sapatos,
parecem mais pantufas que sapatos,
os joanetes nos pés não suportam sapatos,
agora que tem pés de pato, pensa e sorri,
e é com esse sorriso sai para a rua,
vai ao café, senta-se na sua mesa,
longe da porta e de correntes de ar,
sem pedir trazem-lhe um bolo de arroz,
uma chávena de chá, pacotinho de açúcar nenhum, diabetes,
e como se ele estivesse sentado ao seu lado,
ele está sempre ao seu lado, namoram um bocadinho,
todos os dias namoravam um bocadinho,
stay little Valentine, stay
each day is Valentine's Day
o tempo de um bolo de arroz, de uma chávena de chá,
namoram até que, sem discrição,
uma menina na mesa ao lado aponta o dedo e pergunta,
aquela senhora a falar sozinha é um palhaço,
e, sem ter tocado no bolo de arroz, ele desaparece,
ela que estava feliz, fica desmedidamente triste,
porque a tristeza consegue ser mais triste quando já foi alegria.
©rsm

quarta-feira, 21 de março de 2018

Mohammad Mohiedine Anis, 70, smokes his pipe as he sits in his destroyed bedroom listening to music on his vinyl player in Aleppo's formerly rebel-held al-Shaar neighbourhood on March 9, 2017. / AFP PHOTO / JOSEPH EIDJOSEPH EID/AFP/Getty Images

A arte será sempre refúgio e salvação

segunda-feira, 19 de março de 2018