Nas alturas mais complicadas da minha vida escrevo os melhores capítulos.

Não há passos perdidos.


domingo, 25 de julho de 2021

terça-feira, 20 de julho de 2021

 

Cada um tem de entrar sozinho na sua noite.
Tiago Araújo- Ano Zero
Obra/ Anselm Kiefer

sexta-feira, 16 de julho de 2021

 


O que conta não é a manifestação do desejo, da tentativa amorosa. O que conta é o inferno da história única. Nada a substitui, nem uma segunda história. Nem a mentira. Nada. Quanto mais a provocarmos, mais ela foge. Amar é amar alguém. Não há um múltiplo da vida que possa ser vivido. Todas as primeiras histórias de amor se quebram e depois é essa história que transportamos para as outras histórias. Quando se viveu um amor com alguém, fica-se marcado para sempre e depois transporta-se essa história de pessoa a pessoa. Nunca nos separamos dele. Não podemos evitar a unicidade, a fidelidade, como se fôssemos, só nós, o nosso próprio cosmo.

Marguerite Duras

terça-feira, 13 de julho de 2021

 


Eels - That Look You Give That Guy 1 (Official Video)

 "A beleza de uma mulher é a sua própria feminilidade.

Não é, o que mostra, mas o que ela consegue fazer imaginar."

Cocoon, Lola Marsh - I Got You

sexta-feira, 9 de julho de 2021

Constable


“De aquí a un año
pueden pasar tantas cosas:
Que encontremos el amor de nuestra vida,
que lo perdamos (acaso una vez más),
que descubramos que, con todo, no nos hacía tanta falta.
De aquí a un año
pasarán tantas cosas:
Que las pesadillas dejarán de serlo de pronto,
que nos asustarán pesadillas nuevas,
que descubriremos que, con todo, es nuestro miedo (y no las pesadillas).

De aquí a un año es tanto tiempo”.

Berna Wang

quinta-feira, 8 de julho de 2021

quarta-feira, 7 de julho de 2021

terça-feira, 6 de julho de 2021

domingo, 4 de julho de 2021

Billie Holiday - Lady Sings The Blues

Já sei que o vinho gosto dele seco.

Que alho, limão e azeite nunca devem faltar numa cozinha.
E sal, que sou salgada.
Sei que água fresca não tem espera.
E que em cru, eu é mais Ceviche.
Sei que cheiros a valer são a memória viva.
Digo que prefiro azeitonas.
- Pode ser amendoins?
- Poder pode, mas as lágrimas são minhas.



domingo, 27 de junho de 2021

Solidão a quanto obrigas

Desde que nasci, nada para mim foi fácil.

Para nascer fui tirada a ferros. 

E a infância de mãe ausente, que curava feridas das ausências de dois irmãos mortos. Fiquei filha única. Com tudo o que tem de bom e de mau.

Encontrei umas mães substitutas, mas o cheiro da Mãe é só um.

Os Domingos sempre me foram particularmente difíceis, ou porque eram o dia de regressar ao colégio interno, a calçada de Carriche na altura era a chorar,  ou às cidades onde desde tenra idade vivi sozinha. Não tive almoços de família aos Domingos. Mas tive a liberdade de os esticar assim que pude.

Uma exposição, um concerto, um livro, um copo, cinema fora de horas, alimenta muitos esfomeados...os passeantes sem ninguém à espera.

A liberdade cobra um preço.



 O Júlio Pomar disse-me sempre em alturas difíceis da minha vida

– Aguenta-te
que de facto é a única coisa que se pode dizer. E eu tento aguentar, fingir que aguento quando sinto que me desmorono dentro de mim. Há sempre uma parede ou outra, ou um bocado de parede, que resiste e encosto-me a ela pensando
– Quando é que irá cair, quando é que irá cair?
Talvez caia, talvez não. E, se não cai, conseguiremos levantar de novo tudo o resto? Ou uma parte do resto? Ou um resto do resto? Amanhar uma espécie de tecto? Ou sentar-me no chão, ao lado das pedras, sem olhar para elas? Sentir que me desmoronei também, me tornei uma ruína igualmente? O Júlio
– Aguenta-te
quer dizer, a voz do Júlio num ponto qualquer em mim
– Aguenta-te
isto é não o Júlio, só a voz, entre poeira que assenta e tijolos quebrados
– Aguenta-te
dois olhos pequeninos atrás de óculos grossos
– Aguenta-te
comigo a tentar agrupar-me, juntar-me todo, defender–me, proteger o que sou, o que teima em existir de mim e que não sei se me pertence ou está para ali como um velho retrato desfocado, do qual se não distinguem bem as feições. Torno-me uma pequenina coisa informe algures no meu corpo, torno-me um pingo de nada em silêncio, porém um silêncio que grita embora nem eu mesmo o oiça. Apercebo- -me que grita apenas porque os meus ossos vibram, reduzidos a fios. Vida, vida, quanto tempo duras tu de facto? Prolongas–te por abril, maio, junho, julho, agosto, até ao setembro dos meus anos? As marés do equinócio a que eu assistia da muralha sobre a praia, as ondas que à noite, em criança, escutava da cama, no escuro, numa fúria teimosa, misturada com a inquietação dos pinheiros. Onde se escondem os melros à noite? Na garagem? No canavial? A repetirem
– Aguenta-te?
E, de repente, ignoro porquê, aparece-me Monsaraz na cabeça, as luzes de Espanha, há tantos anos que isto foi. Nossa Senhora da Lagoa, os homens a cantarem na capela abandonada, que grande é o passado, ou calor de assadura ou frio de sepultura. Um cão magríssimo rente às casas. Mulheres velhas sentadas. Saudades do Guadiana, a ribeira como lhe chamavam, barcos em forma de folhas.
– O que está o senhor a fazer?
– Estou escrevendo.
– Pois: olhar para dentro.
Isto a Margarida, gorda, rugosa. Olhar para dentro, a melhor definição que escutei. A açorda de cardos dela, a respiração da água no barro. Olhar para dentro. A vida inteira a olhar para dentro, eu a passear no castelo com a Isabel.
– Pai, o que é?
– Não é nada
– Pegue-me ao colo.
Porque vértices de pedras, porque lagartixas. Pegue-me ao colo é o meu sangue noutro corpo, separado pelas nossas peles mas o mesmo, alegra-me pensar que o mesmo. O que te acontecerá quando fores grande?
– Vou ser grande, pai?
– Muito grande.
– E quando for muito grande sou pequena também?
Claro que sim. Mesmo enorme hás-de caber nos meus braços. Besouros, vespas
– Tenho medo das vespas
com aquelas cinturinhas finas, aquela zanga. As raízes da figueira que levantavam a rua. Ver o sol pôr-se. Não ver nada. Ver o sol pôr-se outra vez.
– Se tu quisesses corríamos de mão dada até Reguengos.
– Porque é que Reguengos se chama Reguengos?
– Não faz mal, é só um nome.
– Como Isabel?
– Como Isabel.
– Como António?
– Como António.
– O meu avô também é António. Chama-se Avô António e o pai só se chama António.
– Pois é, olha só me chamo António.
– Menino Antoninho não se aproxime do lago que ainda cai lá dentro.
– Se cair lá dentro como um peixe inteiro.
– Que horror!
Nesse tempo, quando eu era capaz de comer peixes vermelhos, não havia António. Nem Isabel. Nem Reguengos. Havia tias, havia o senhor José a regar. Ao tirar o chapéu ficava-lhe um vinco na cabeça grisalha.
– Porque é que os cabelos ficam brancos?
– É da idade.
– O que é a idade?
– É quando a gente somos velhos.
– Eu não envelheço, pois não?
– Claro que não, menino.
E se não fosse março não envelhecia.
O senhor José morreu há muito tempo. Vestia uma espécie de fato-macaco, andava sempre com uma mangueira. Dois lagos no jardim, um grande e um pequeno. O grande com um caramanchão e de pedra. O pequeno de azulejos, mais perto da casa. Eu a descobrir coisas: vermes, gafanhotos. Uma bomba de gasolina na estrada, às vezes tropa a marchar. Os dois castelinhos das Portas de Benfica, árvores à esquerda, mendigos. A carroça do rapaz corcunda que vendia leite e descia com dificuldade lá de cima. Nunca lhe soube o nome mas invejava-o: queria ser grande muito depressa para vender leite também, mas depois de crescer já não me apetecia vender leite: somos tão inconstantes. Mas, como aconselha o Júlio
– Aguenta-te
e lá me aguento, que remédio. Encostado à minha única parede aguento-me. Não uma parede inteira, um pedaço. Sempre é melhor que nada. E talvez consiga ficar assim muito, muito tempo.

António Lobo Antunes, in 'Visão' (2016-07-28)