sábado, 20 de março de 2021
quinta-feira, 18 de março de 2021
Cara ou coroa
Saudades, de ouvir a leveza de um jazz numa tarde a entrar de noite num recanto de Lisboa.
É o meu pensamento num entardecer dum Março covídico à saída da consulta de medicina do trabalho.
Não fiquei transtornada com a sentença da balança, dois dígitos a mais. Tanto que resolvi ir lanchar. Corri duas pastelarias com nomes franceses e nada. Montras com ar de ontem. Para pecar que seja a valer a pena.
Salva por ser esquisita. (Hoje era mesmo um croissant de amêndoas)
Tenho dias, e horas e dentro das horas minutos.
Sei o que quero. Nunca existe. A desgraça é minha.
Bebo um vinho que diz que é biológico mas que não me deixa recordações.
Falta-lhe corpo.
E não é das caras que se vive.
Nem tirando a moeda ao ar.
quarta-feira, 17 de março de 2021
quarta-feira, 10 de março de 2021
«The Road Not Taken»
Two roads diverged in a yellow wood, And sorry I could not travel both And be one traveler, long I stood And looked down one as far as I could To where it bent in the undergrowth; Then took the other, as just as fair, And having perhaps the better claim, Because it was grassy and wanted wear; Though as for that the passing there Had worn them really about the same, And both that morning equally lay In leaves no step had trodden black. Oh, I kept the first for another day! Yet knowing how way leads on to way, I doubted if I should ever come back. I shall be telling this with a sigh Somewhere ages and ages hence: Two roads diverged in a wood, and I— I took the one less traveled by, And that has made all the difference. Robert Frostsegunda-feira, 8 de março de 2021
"Si eres una mujer fuerte
domingo, 7 de março de 2021
Domingo de confinamento
Tem dias que em pensamento acordo lá,
sobre aquele imenso céu do Alentejo, semelhante só em África.
Consigo ouvir os sons, os cães ao sol quase em bebedeira adormecida de parede a parede,
a linguagem aberta dos pássaros em alegre movimento e as mulheres na rua a chilrear também, como só ali.
As cegonhas batem o bico e ficam mimetizadas com a cal das casas.
Escuto até o meu pai no cante, Alentejo és nossa terra.
Acompanho, com o Vitorino que há em mim, apesar da voz perdida na mudança de idade como a do Joselito pan y vino.
Abro os olhos, pela persiana aterro o pensamento em Lisboa,
o relógio não acerta a hora, mas bate os segundos.
- Pilhas novas precisamos todos!
Sim, também falo sozinha.
Suspiro e respiro.
Tento uma fuga ao mar, mas fica por um canudo.
Adraga cortada, estaciono num Guincho que não me satisfaz.
Basicamente desejo é fazer klms,
Sentir a estrada fora.
Um sítio novo num raio possível.
Anda tudo à roda do penico.
Pela janela vejo um velhote atrevido num banco do jardim a cortar as fitas.
Senta-se.
Quero ver quem o detêm.
Com a idade perdemos todos os medos.
A música que vem do vizinho afinal é um hard metálica da pesada, eu que pedi um Jazz Bossa Nova.
Oh Senhores anda tudo desatento!
Até nos vizinhos se tem que investir, nunca foi tão importante como agora o que se encontra no metro quadrado de proximidade.
Mas nem tudo está perdido,
passou um avião a cruzar o céu.
Quem disse que os trevos eram só verdes?
sábado, 6 de março de 2021
(...) Aceito a ordem
das coisas, a geometriaimposta do quarto?
Os objectos no
seu lugar de sempre,
a distância exacta
da cadeira à mesa,
do meiple à janela?
O sono do tapete?
O universo diário
do quarto alugado,
as molduras que
cercam, resguardam
naturezas mortas,
paisagens imóveis?
Aceito a minha vida?
Ou mexo no candeeiro,
desvio-o alguns centímetros
na mesa, altero
as relações das coisas,
afinal tão frágeis
que o simples desvio
dum objecto pode
romper o equilíbrio?
Pego no telefone
e grito ao primeiro
desconhecido: ouves-me?
Ou deixo tudo
tal como está,
medido, quieto
no rigor do quarto,
e eu hesitante
entre o soalho e o tecto?
Desloco o cinzeiro
sabendo que posso
matar mandarins,
provocar cataclismos,
fracturas, amores,
eclipses, sonhos,
com a ponta dum dedo?
Ou apago a lâmpada
eléctrica e entro
no mesmo torpor
que as flores do tapete,
a fruta dos quadros,
o frio, o bolor,
no chão, nas paredes,
o poema na mesa,
a mesa no espaço
do quarto comprado
mês a mês? Confundo
o aluger e o tempo,
deixo-me ser
em cada milímetro,
em cada segundo,
do quarto, da vida,
o outro objecto
chamado inquilino?
Ou desencadeio
a insurreição
mudando de sítio
o meiple, a cadeira,
mudando-me a mim?
(O Inquilino, Carlos de Oliveira)
Ficar a nú
Um dos sinónimos de perfeição - Remendo.
Hoje, comentava com um amigo que já ninguém está inteiro.
Debaixo das muitas capas,
de roupa, feitio e aparências,
fica a morada das cicatrizes.
A arte de concertar requer mãos e paciência de ourives.
O que nos une e o que nos separa,
de que argamassa somos feitos afinal?
"...viemos demasiado tarde para os Deuses, demasiado cedo para o Ser. O Homem é um Poema que o Ser começou."
A menor distância entre dois seres é sentida no mesmo comprimento de onda, e na perturbação que entre os dois se repete e por isso interação.
Que os pedaços dos quebrados se juntem em retalhada harmonia.
Existe uma arte japonesa- Kintsugi, que trata de reparar cerâmica quebrada, com pó de ouro, prata ou platina.
Costuras de ouro.
É deixar a descoberto.






