Nas alturas mais complicadas da minha vida escrevo os melhores capítulos.

Não há passos perdidos.


domingo, 10 de outubro de 2021

Sorolla


 

Ben Howard - Promise (unofficial music video)

EPITÁFIO DE DOMINGO

Se eu desaparecer hoje
E falo mesmo do meu corpo aqui tão sentado
a escrever desde a ponta da língua à légua mais distante
da minha vida,
diz que compreendi.
Diz que sei que nada está onde é certo estar
Que o amor súbito é a escada para o entendimento
e rói os espelhos
Diz que fui ar azul sobre campos de secura
Estrada recta ao infinito, entre oliveiras,
um acidente ao longe
Que provei toda a sede quando engoli os homens
Que queimei alegremente no ácido das palavras
Que tombei em ricochete para que me vissem
E que quando me viram me ergui animal
Diz que me viste nua, sempre
Que corri por hospícios de olhos fechados
e boca às avessas
Que vivi mais ao alto do que em mundo plano
e fui honesta na minha rente loucura
Diz que nunca esqueci a subida a um plátano
Que ninguém viveu no meu lugar nem eu no de ninguém
Que fui sim, o halo frio que enchi com esta pena pela
minha ausência
E que tudo o que disse foi com silêncio
Diz que sei, sobretudo, que ardemos juntos como ventosas,
embora não queiras
Que o teu corpo me serviu de andar nas pernas asmáticas
Que te agradeço ter-te oferecido lírios
Que me reduziste o nojo da espécie
Diz que eu, fui eu
Guarda-me este segredo que tenho largo por baixo dos cabelos:
- quanto em mim fui que não vivi
quanto em ti é que fui eu?
Mas não te preocupes, não desapareço hoje
Quando me conheceste já eu não existia,
e tu sabes
que essas saudades que vais tendo,
são as minhas.
Cláudia R. Sampaio, OUTRO NOME PARA A SOLIDÃO

sexta-feira, 8 de outubro de 2021

Je te laisserai des mots

 


 "De que lado viste chegar

o outono? Por que janela
o deixaste entrar? És tu quem
canta em surdina, ou a luz
espessa das suas folhas?
Em que rio te despes para sonhar?
É comigo que voltas
a ter quinze anos e corres
contra o vento até te perderes
na curva da estrada?
A quem dás a mão e confias
um segredo? Diz-me,
diz-me, para que possa habitar
um a um os meus dias."
Eugénio de Andrade

domingo, 3 de outubro de 2021

Gustavo Santaolalla - Pajaros

Incrível Carta de Vinícius de Moraes para Tom Jobim

“Caro Tonzinho, estou em Paris, num hotel com sacada sobre uma praça, que dá para toda solidão do mundo e diz: Procura-se um amigo. Não precisa ser homem, basta ser humano, ter sentimento, ter coração. Precisa saber falar e saber calar no momento certo. Sobretudo, saber ouvir. Deve gostar de poesia, da madrugada, de pássaros, do sol, da lua, do canto dos ventos e do murmúrio das brisas. Deve sentir amor, um grande amor por alguém, ou sentir falta de não tê-lo. Deve amar o próximo e respeitar a dor alheia. Deve guardar segredo sem sacrifício. Não precisa ser puro, nem totalmente impuro, porém, não deve ser vulgar. Deve ter um ideal e sentir medo de perdê-lo. Se não for assim, deve perceber o grande vazio que isso deixa. Precisa ter qualidades humanas. Sua principal meta deve ser a de ser amigo. Deve sentir piedade pelas pessoas tristes e compreender a solidão. Que ele goste de crianças e lastime as que não puderam nascer e as que não puderam viver. Que goste dos mesmos gostos. Que se emocione quando chamado de amigo. Que saiba conversar sobre coisas simples e de recordações da infância. Precisa-se de um amigo para se contar o que se viu de belo e triste durante o dia; das realizações, dos sonhos e da realidade. Deve gostar de ruas desertas, de poças d’água, de beira de estrada, do cheiro da chuva e de se deitar no capim orvalhado. Precisa-se de um amigo que diga que a vida vale a pena, não porque é bela, mas porque já se tem um amigo. Deve ter um ideal e medo de perdê-lo. Deve ser Don Quixote sem contudo desprezar Sancho. Precisa-se de um amigo para se ter consciência de que ainda se vive.”

terça-feira, 28 de setembro de 2021

sexta-feira, 24 de setembro de 2021

O início era o gesto, mas não me tirem tudo

Daquelas coisas que ninguém perderá tempo a reparar mas que me ocupa o pensamento,

o meu semblante acompanha a abertura dos braços do abre garrafas na sacada da rolha.

E o médico a dizer, não misture álcool, logo eu tão propensa a misturar tudo.

Ou aguento a dor, ou aguento o álcool.

E numa sexta, aqui de barriga vazia, ou quase,

mas sem lamentos, que o almoço já lá vai

veio depois o gelado de caramelo e amêndoas, o queijo que afinal chegou à boca sem se perceber como,

e agora numas sete da tarde ainda cedo para tudo e tarde para jejuar,

só apetece é cozinhar coisas boas para o jantar,... e canto Sérgio Godinho aldrabado: 

e o jejum que devia, e o jejum que devia,

mas soube-me a tanto, mas soube-me a pouco!!


E até a vizinha a dizer: 

- Já estás a fazer dieta??

E eu de resposta pronta e ar convicto: 

- Fui pôr pilhas na balança, agora é perder uns 8 que remete a infinito a contar desde ontem!!!

E o presente esse malandro, que se escapa.

Mas que em silêncio cobra fatura.

terça-feira, 21 de setembro de 2021

Hollow Coves - These memories - lyrics

 


Se eu falar contigo,

se tentar,

uma palavra, uma respiração de cada vez,

se escutar entre as palavras,

se avançar lentamente,

vens até este lugar

que abriste para a minha dúvida?


Leonard Cohen

num dia como o de hoje

quinta-feira, 16 de setembro de 2021

O mundo anda à roda, mas não assim tanto

Eu que achava tão estranho, ridículo até, a minha avó Alice reutilizar e lavar os sacos de plásticos pequenos e transparentes, e já estou na mesma. Sem ter passado por uma guerra como ela, só cada um sabe que passa as próprias e as alheias.
Mesmo assim por muitas voltas que o mundo ainda dê,
Já deveria saber que certas coisas não mudam, mesmo com as lições estudadas e os resultados à vista.

Não sou pessoa de acatar ordens, digo que sim e faço o que sinto.
Digo os bons dias ou as boas tardes conforme, para mim o relógio é interno.
Sei que não devo mexer em comandos, sejam para o que sejam, carrego nos botões todos.
Nem que irei tomar os comprimidos a horas, mesmo os de extrema necessidade.
Que não vale a pena ter tantos livros de receitas, não sigo nenhuma, nem perguntem como fiz, a comida leva o que houver em casa, por isso única e diferente.
E o que lamento não decorar nomes, porém não esqueço um olhar, e a todos chamo querido.
Que os impossíveis acontecem, e a mim mais, tanto as coisas boas como as más, vivo em lei de Murphy animada.
Já deveria saber que de nada serve andar de babete, se tudo cai onde tiver que cair.
Mesmo eu, tão prevenir e não remediar.
Sim, só ponho o cinto depois do carro em andamento.
E no meu porta-bagagem levo o mundo, in case.
Sei que bebo o café sempre frio, de penálti, porque o esqueço ou não gosto de nenhum, e nunca me lembro de pedir chá.
Atenção aos queridos, pertenço ao club canino, tenho mesmo má relação com gatos, não insistam, quanto muito uns leões.
Não aguento mais convites para Sushis, eu é mais massas. Ou algo não mais do mesmo.
E ainda me perguntam quem és tu?
Na melhor das hipóteses, como sou de apetites, alguém atrás do Lobo.


terça-feira, 14 de setembro de 2021

sábado, 11 de setembro de 2021

quarta-feira, 8 de setembro de 2021