“Cuando eres joven tiendes a asumir que habrá mucha gente con quienes tendrás una conexión. Después te das cuenta que eso sólo sucede un par de veces en la vida”.
"Antes del atardecer"
Tenha paciência com tudo que permanece por resolver no seu coração. Tentem amar as perguntas em si, como quartos trancados e como livros escritos numa língua estrangeira. Não procure agora as respostas. Eles agora não podem ser dados a você porque você não poderia vivê-los. É uma questão de experimentar tudo. No momento é preciso viver a questão. Talvez, gradualmente, sem perceber, te encontres a experimentar a resposta, um dia distante.
~Rainer Maria Rilke
Ontem recebi uma carta de uma jovem que vive sozinha, uma cineasta de alguma reputação. Ela quer fazer um filme sobre pessoas que vivem sozinhas, e virá na próxima semana para falar sobre os seus planos. Eu percebi que ela tem algumas dúvidas sobre a vida solitária. Disse-lhe que sinto que não é para os jovens (ela só tem trinta e três). Não comecei a viver sozinha até aos quarenta e cinco anos, e tinha "vivido" no sentido de amizades apaixonantes e casos de amor muito ricamente durante vinte e cinco anos. Eu tinha uma grande quantidade de vida em que pensar e digerir, e acima de tudo, eu era uma pessoa nessa altura e sabia o que queria da minha vida. As pessoas que amamos são construídas em nós. Todos os dias estou subitamente ciente de algo que alguém me ensinou há muito tempo - ou ainda ontem - de alguma certeza e autoconsciência que surgiram do conflito com alguém que amei o suficiente para tentar abranger, por mais doloroso que esse esforço possa ter sido.
~May Sarton
Dizes que a voz se transforma e cria imagens. Eu penso na pintura e em grandes telas a óleo. No cubículo fazem-se milagres. A voz expande-se. O universo expande-se. Há um relojoeiro cego, um ladrão de arte e um guarda de museu. Bebem uísque frio, puro com nuvens.
Toda a grandeza num grão de mostarda, todo o tamanho numa partícula, todas as escrituras numa anedota de bar. Dizes que um sorriso muda o mundo. E um pássaro sagaz morre nesse instante contra o vidro.
No quarto em rectângulo agudo o amor levita. Circum-navegações. O mar prolonga-se, as gaivotas roubam joias em condomínios fechados. As mulheres cumprem a sua sina vegetal, a lua inventa-as todas as noites.
Quatrocentos reclusos furaram o cerco e são felizes, o céu confina-se em arame farpado e subsistem conchas com vozes dentro.
Dizes que a voz aquece. A atmosfera aquece. O mundo esquece-se. Toda a pequenez no oceano roubado por navios calados, luzentes.
No pátio em quadrado macio fazem-se maravilhas. A perfeição avizinhou-se do sonho com grandes asas de cristal e olhos de ferro. Há um tenente da Marinha, um adicto do sol poente e um palhaço trémulo.
Bebem cicuta pura, e limões agrestes laminados; homens bomba com cinturas estreitas ameaçam a manhã, fumam-se cigarras.
Dizes que me amas e não o dizes senão quando é segredo. A minha voz lateja, convoca mundos.
Na linha da praia, contínua, fazem-se noites e relentos. Místicos adiposos morrem de medo junto às paredes.
Eu penso na luz e nos mistérios luminosos, telas vazias, biombos cheios de luz. Há ondas sonoras cheias de sal e de tainhas e de surfistas. Toda a areia num grão de universo.
Bernardino Guimarães
“Si eres una mujer fuerte
prepárate para la batalla:
aprende a estar sola,
a dormir en la más absoluta oscuridad sin miedo,
a que nadie te tire sogas cuando ruja la tormenta,
a nadar contra corriente.
Entrénate en los oficios de la reflexión y el intelecto.
Lee, hazte el amor a ti misma, construye tu castillo,
rodéalo de fosos profundos,
pero hazle anchas puertas y ventanas.
Es menester que cultives enormes amistades,
que quienes te rodean y quieran sepan lo que eres,
que te hagas un círculo de hogueras y enciendas en el centro de tu habitación
una estufa siempre ardiente donde se mantenga el hervor de tus sueños.
Si eres una mujer fuerte
protégete con palabras y árboles
e invoca la memoria de mujeres antiguas.
Haz de saber que eres un campo magnético
hacia el que viajarán aullando los clavos herrumbrados
y el óxido mortal de todos los naufragios.
Ampara, pero ampárate primero.
Guarda las distancias.
Constrúyete. Cuídate.
Atesora tu poder.
Defiéndelo.
Hazlo por ti.
Te lo pido en nombre de todas nosotras".
Gioconda Belli
Na ilha por vezes habitada do que somos, há noites,
manhãs e madrugadas em que não precisamos de
morrer.
Então sabemos tudo do que foi e será.
O mundo aparece explicado definitivamente e entra
em nós uma grande serenidade, e dizem-se as
palavras que a significam.
Levantamos um punhado de terra e apertamo-la nas
mãos.
Com doçura.
Aí se contém toda a verdade suportável: o contorno, a
vontade e os limites.
Podemos então dizer que somos livres, com a paz e o
sorriso de quem se reconhece e viajou à roda do
mundo infatigável, porque mordeu a alma até aos
ossos dela.
Libertemos devagar a terra onde acontecem milagres
como a água, a pedra e a raiz.
Cada um de nós é por enquanto a vida.
Isso nos baste.
José Saramago, in "Provavelmente Alegria"
Sempre desprezei as coisas mornas, as coisas que não provocam ódio nem paixão, as coisas definidas como mais ou menos. Um filme mais ou menos, um livro mais ou menos. Tudo perda de tempo. Viver tem que ser perturbador, é preciso que nossos anjos e demonios sejam despertados, e com eles sua raiva, seu orgulho, seu acaso, sua adoração ou seu desprezo. O que não faz você mover um músculo, o que não faz você estremecer, suar, desatinar, não merece fazer parte da sua biografia.
Martha Medeiros