Nas alturas mais complicadas da minha vida escrevo os melhores capítulos.

Não há passos perdidos.


segunda-feira, 15 de junho de 2015

NUNCA SE DEVEM ACUMULAR SILÊNCIOS...


ALICE VIEIRA, in OS ARMÁRIOS DA NOITE 


o perigo de acumular silêncios em
corredores vazios ou
qualquer outro vício que a
vida nos traz

é que depois as palavras
morrem à toa
sem flores sem cânticos sem
missa do sétimo dia

e ninguém sabe para que serviram
se mataram quem não deviam ou
se ficaram entre
os intervalos do sono fazendo-nos
tropeçar nelas como em
chinelos velhos roupa da véspera
peças de um puzzle que nunca
tivemos tempo de acabar

por vezes surge-nos mesmo a tentação de
as tapar com os lençóis brancos das arcas
onde as avós nos organizavam o futuro
e que nunca usávamos porque

eram de linho e o linho
dava muito trabalho a engomar
mas rapidamente entendíamos que
também as palavras davam muito trabalho a desdobrar
na nossa língua e
embora uma ou outra ainda tentasse brilhar
acabavam sempre por encontrar o caminho de saída
onde o rasto dos crimes perfeitos as esperava

sobre elas se abatem
os pesadelos das manhãs de domingo e
ninguém se lembra de lhes arranjar
significados para o que deixaram para trás
neste estranho país onde continuamente as esperamos
no cais das mercadorias fora de prazo

depois tudo acaba
ninguém lhes coloca a pedra
com dia de nascimento e morte
ninguém procura herdeiros ou
calcinados despojos

– cavalos de guerra abandonados
na terra de ninguém



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