Nas alturas mais complicadas da minha vida escrevo os melhores capítulos.

Não há passos perdidos.


sexta-feira, 15 de junho de 2012


Esta mesa em que escrevo foi pensada
para ter muitos amigos à volta dela.
Podemos encaixar-lhe duas tábuas
torná-la mais comprida.
Haverá mais pratos, mais cadeiras.
... Todas as mesas são pequenas se não contam
com todas as estrelas do céu.
Não mata a fome nenhum pão que não repartas.

Está velha, a mesa. Protesta
chia, range, resmunga
grita, geme, lamenta-se.
Se poisas os cotovelos
se levantas os cotovelos
se estendes a toalha
se tiras a toalha
se sacodes as migalhas,
aqui d'el-Rei que a matam!

Vejam. Toda riscada.
Toda esfolada.
Os golpes, os rasgões. E sob
a pele fina do contraplacado
vemos a carne viva do castanho.
O que não a invalida, notem bem.
Ninguém trabalha melhor do que ela
em questão de talher, de copos, de terrina.
Com a toalha posta
(ou, digamos, depois de maquilhada)
a porcelana de nobreza, os vidros
de bem com a luz, ei-la orgulhosa
da sua condição.
(...)

(excerto de "Divina Música")
Mário Castrim, in "Viagens em casa", Editorial Caminho
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6 comentários:

  1. Obrigado Salomé.
    "E apesar dos riscos
    feridas
    fendas
    cicatrizes
    apesar da cabeça andar à roda
    a mesa foi feliz.
    Raras serão as mesas de sala de jantar
    Que têm tanto de vida pra contar."

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    1. Obrigada Simão, por o completares por inteiro.
      A minha sala tem uma mesa destas.:)

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    2. Julgava já não existirem mesas assim.

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  2. Tal como “numa vida, há muitas vidas” também numa mesa há muitas tábuas. O que importa para a mesa é a forma como estão ligadas; há as encostadas, coladas, agrafadas, macheadas; esta muito mais resistente e duradoura. Todas as formas são possíveis só não devem ser sobrepostas, deixa de ser uma mesa e passa a ser um amontoado de madeira.
    As vidas da vida também se ligam e quem sabe pelas mesmas formas das tábuas.
    Nada se passa nas nossas vidas que não passe pela mesa; rimos e choramos; somos felizes e odiamos; jogamos e perdemos; fazemos amigos e desiludimo-nos; somos mestres e alunos; pais e filhos; fazemos promessas e traímos; saciamo-nos e pensamos nos que não têm nada.
    Talvez não sejamos o berço que tivemos mas sim a mesa onde brincámos.

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